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Eduardo Miranda

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19.

Vence, enfim, o dia à noite, as malas já estão arrumadas, só esperando o despique da batalha, que resultará no amanhecer, para que possam os alemães partir. E esse amanhecer será diferente, porque o mundo, ou ao menos Liúnas do Norte, amanhecerá com três pessoas a menos, sem um artesão, dos mais competentes e habilidosos, sem um tocador de cocho, cantador de moda e contador de caso,  que levava alegrias por onde ia e que parecia estar tomando jeito para o trabalho, e sem um padre, ou sem o padre, já que era o único, se é que Deus assim o considerava. Mas ainda assim, as vidas continuarão em Liúnas do Norte, havendo sempre aquela dose de ajustamento em tudo que se faz, ainda mais agora, que as três pessoas que formavam aquela minoria que não tinha a vida tão regrada e ajustada, já não mais respiravam os ares liunenses, e ainda assim, serão os mesmos os cafés da manhã, os mesmos almoços e jantares, as explorações nas fazendas, que não seria justo nos esquecermos de Zé Silveira e Adelina, que tão sofridas vidas tiveram, e serão os mesmos os rasqueios de cocho nas rodas nas calçadas, as moças desfilando na praça e os moços olhando, e aos domingos de manhã, alguém se lembrará ao menos de tocar o sino, anunciando a missa, só que não haverá ninguém para conduzi-la, só os fiéis estarão lá, rezando, que isso padre Frido ensinou muito bem, e ensinou também que é o caminho para se chegar ao céu, junto com o arrependimento.

Sendo hoje domingo, o sino começa a soar, pontualmente às sete horas, e como ninguém ainda sabia da morte de padre Frido, não havia espanto algum, exceto para os forasteiros, que vão até a igreja, mas ela está vazia… os bancos, o altar, o próprio ar parece mais vazio que o costume, mas mesmo eles, ao entrarem, sentem uma paz e uma serenidade só comparada àquelas dos ingênuos tempos de criança, em que acreditávamos em tudo, tanto que chegaram a acreditar que a igreja estava cheia. Marthe acomoda-se no primeiro banco, quase que pedindo licença a alguém, Christian e Vicent continuam parados na porta da igreja, observando Marthe e a igreja vazia. E só estava vazia para eles que não podiam ver nem ouvir o padre Frido, no altar, iniciando sua missa como sempre, dizendo, Estamos todos aqui reunidos em torno da mesa eucarística como irmãos e irmãs para celebrarmos nossa privilegiada posição de filhos de Deus, e digo que é privilegiada porque agora sei, e não porque li, e digo que se Deus necessitar de braços para ceifar a messe, daremos os nossos, os dois até, que só não damos mais por não os termos em maior número, que todos somos frutos da Sua messe. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e todos respondem, Amém, só que ninguém ouve, porque estes que respondem são Jurema e Gonçalvez Tristão, Maria da Graça e Domingos Simão, juntos, quem seria capaz de adivinhar que não vieram a dar certo aqui iriam dar certo lá, Adelina e Zé Silveira, que embora não tenha sido contado, Deus fez a vontade dos dois que era de ficarem juntos, e Antônio Constante, que de longe olhava para Pedro Tristão afinando o seu cocho, aquele especial, e João Simão, afinando o seu, também especial, já que feito por ele, lá nos céus, que o tempo lá tem outras distâncias e outras medidas, e muitos outros que já tinham deixado esses ares para respirarem os ares mais puros dos reinos do Senhor, para se alimentarem daquele mesmo café da manhã, almoço e jantar de todos os dias, só que agora divinos e eternos.

E quem disser que os ensinamentos de Constante não tinham este objetivo como principal e primeiro, pode estar se arriscando numa blasfêmia, pois os anjos agradecem a chegada desses novos habitantes, e de hoje em diante, já que agora têm um artesão e um tocador nos céus, não mais se limitarão a tocarem suas liras e harpas, e poderão conhecer os prazeres de se tocar uma viola de cocho.

 
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