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Eduardo Miranda

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15.

Tristão desceu o cocho da parede, brilhante e imponente. Simão ao pegá-lo ficou tomado por um fascínio quase infantil, uma vontade de gritar de alegria, como se tivesse ganho aquele presente que havia esperado a vida inteira. Era um cocho diferente dos demais que se conhecia. Simão não fez nenhuma pergunta, talvez por não conseguir falar, e foi explorando o cocho, sozinho. A primeira particularidade era ter seis cordas, uma corda extra entre a segunda e a terceira, ao invés das cinco tradicionais, e João Simão já logo que pegou fez  vibrar a corda desconhecida, querendo ouvir o que tinha ela a dizer, já que nunca antes esteve presente nos cochos que tocava, Ela disse um lá requintado, falou João, fascinado, muito mais para ele do que para outro alguém ouvir, e saiba-se que requintado, em linguagem de tocadores de cocho, é o mesmo que oitava acima em linguagem tradicional de música, e João conversou com a nova corda por alguns instantes, quando enfim passou para outro detalhe que diferenciava este cocho de Pedro Tristão dos demais, a sonoridade, que era única, quase divina, completa, diferente daquele som meio rachado e abafado que os cochos tinham, e observou João que isto se dava devido a duas coisas, uma era o buraco no meio do tampo, que permitia o som se propagar com maior intensidade, e a outra era os trastes que dividiam as notas, feitos de metal e cravados no próprio braço, diferente dos outros cochos, com trastes feitos de pedaços de barbantes ou algodão fiados em casa e encerados com cera de abelha, amarrados em volta do braço, fazendo uma separação não tão precisa dos semitons. João tocava as cordas e aproximava o ouvido do buraco, querendo ouvir todos os sons que dali saiam, os sons perfeitos, bem divididos, semitom por semitom, sem perder uma só freqüência, Foi você quem fez este cocho, Pedro, Sim, baseado num sonho de Antônio Constante, que Deus o tenha, que teve a visão desse cocho, e da maneira de faze-lo… No sonho, ele andava entre árvores num vale que não é perto de lugar nenhum que se conheça, e lá, encontrou uma árvore diferente, que se destacava das outras, parecendo quase brilhar, e essa árvore especial começou a se retorcer, a mudar de forma, e soltava gemidos enquanto se moldava, gemidos de dor ou de prazer, não soube contar Constante, e a árvore foi estalando, tornando-se ela num pedaço único de madeira, já no tamanho certo de um cocho, e um sol muito forte secou a madeira, que foi se escavando e modelando até dar num cocho, depois veio o tampo e todas as outras partes, de uma vez, e tinha estas características, uma corda a mais, os trastes de ferro a separarem as casas, um buraco, como se fosse uma boca no tampo, e depois de olhar bem o cocho, Antônio Constante tomou-o nas mãos, para apreciar, e sentiu que era um cocho diferente, especial, sentiu que um dia esse cocho seria de muita utilidade, talvez não para ele, mas para alguém muito querido, só que Antônio Constante não teve tempo de realizar o sonho, então me contou e me orientou, lá de cima, para que eu fizesse seu cocho. Estas e outras conversas tiveram Pedro e João, dando a entender que ali nascia uma amizade, que poderia durar por muitos anos, se algo não viesse a acontecer a ambos. E aquela escultura de mulher começada ali no canto, quem é, Não é ninguém não, é de minha cabeça, Tá ficando bonita, tem certeza de que não é ninguém conhecido, Tenho, E como vai se chamar essa escultura, Vênus, Não, Marthe de Liúnas.

Conversaram muito Pedro e João, e descobriram que, um sabendo fabricar cochos e outro sabendo tocar, poderiam se ajudar, já que quem fabricava queria tocar e quem tocava queria fabricar. Firmaram acordo de aprender e de ensinar, e será daí que nascerá a amizade. E lá do céu, entre anjos, Antônio Constante, que acompanhava toda a conversa de Tristão e Simão, quando viu eles darem as mãos, em sinal de acordo firmado, acordo que era tanto de trabalho quanto de amizade, suspirou, dizendo, Obrigado, Senhor, que já não era sem tempo. Agora deixe, que o destino dará conta do resto.

Simão vai até a igrejinha do padre Frido para uma conversa, como sempre fazia, só que desta vez ia diferente, ia contente — aliás, contente sempre esteve, pois nunca se viu Simão triste, mas era um contente diferente, que não é qualquer um que saberia explicar, só quem encontra aquelas penas de que já falei, citadas por Antônio Constante. João entra na sacristia e já vai logo dizendo, Padre Frido, ontem fiquei a conversar com Pedro, o Tristão, e descobrimos que temos muitas coisas em comum, até nos acertamos de ele me iniciar nas artes de fabricar cochos e eu o ensinar as artes de tocar e cantar e... Padre Frido, o senhor está me ouvindo, Frido estava cabisbaixo, pensativo, com um brilho alucinado de pavor em seus olhos, um brilho avermelhado, que Deus nos perdoe pensar que estava possuído, mas ainda assim respondeu, sem olhar para João, Sim Simão, estou a te ouvir, e digo que já sabia que tinham, Tristão e tu, muito em comum, mas não era eu que tinha que o saber, e sim vocês, e não sei se já contei em algumas das minhas histórias, que não são lá de todo verdades mas é no que eu acredito e o que eu acho o mais certo e o mais justo, que Deus nos fez à Sua semelhança, então, se todos somos semelhantes a Deus, seremos também semelhantes a todos, mas nem sempre isso acontece, e aí eu me pergunto, teria Deus criado as exceções propositadamente ou foi um erro, e esta é apenas uma das inúmeras coisas que me perturbam mas ninguém sabe, só eu, e agora você, que me apanhou desprevenido, que se pareço sempre em paz para vocês, é porque não me vêem quando estou sozinho com as minhas dúvidas e os meus medos, mas deixemos estas coisas pra lá, o que queres me contar, Simão, Era só isso, padre, que o senhor sabe como eu careço de amizades, e achei importante contar-lhe que conquistei uma, mas diante de tudo que o senhor falou, vejo o quanto fui mesquinho, Deixe disso João meu filho, que cada um é abençoado com os pensamentos que quer. Só quero que saibas que Pedro também é carente de amizades, assim como tu, Sim, Ótimo, para que não haja enganos, que Deus abençoe vossa amizade, Obrigado padre, A propósito, Simão, já que agora são amigos, e sendo vocês dois as pessoas que mais eu tenho confiança por estarem sempre por aqui a conversar, vá lá e chame Pedro, que tenho algo importante para vos falar.

E  sem entender muito, mas também não precisava, que os olhos de Frido já davam a entender que alguma coisa não ia bem, foi Simão até a casa de Pedro, e bateu, Pedro, Pedro, O que foi Simão, Desculpe atrapalhar teus trabalhos mas padre Frido mandou chamar para ir lá ter uma conversa, eu e você, Eu e você, como, É que passei lá como sempre faço e contei de nossas conversas, ele até abençoou, mas depois, uma tristeza sem tamanho se pôs nos olhos dele, e era como se o mundo todo não passasse de hoje, e tudo que está por fazer ou por falar devesse ser resolvido o mais rápido possível, sem delongas e sem demoras, que o tempo parece ser o maior inimigo, ou pelo menos um dos maiores, que outros deve haver, devido ao pavor nos olhos do padre, só vendo, Então vamos, Simão, que padre Frido deve lá saber o que faz, Deus te ouça Tristão, Deus te ouça.

Ainda é o mesmo aquele céu. O mesmo que afugenta os pássaros, que percebem não terem o seu voar abençoado pelas graças do Senhor, que deve ele estar ocupado com outros expedientes. Se Deus é capaz de ficar desatento a Liúnas por tanto tempo não se sabe, mas estando ou não, não seremos nós que iremos contestar os expedientes divinos e decidir, por inocência de querer ajudar ou por puro egoísmo, onde deve Deus fixar seu olhar e a que horas, que Deus deve muito bem saber ao que deve dar prioridades.

No acampamento, Marthe conversa com Vicent e Christian. Falaram sobre padre Frido ser alemão e o que iriam fazer a respeito. Marthe, que viera apenas para os trabalhos de tradução, teve que se calar.

 
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