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Eduardo Miranda

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11.

A chuva forte que começara logo após a  missa cessava agora. Depois de chover o dia e a noite toda, este sol é de justiça, pensa Adelina. Só que Zé Silveira não voltou pra casa ontem à noite, nem hoje pela manhã, que seria o certo se por acaso tivesse alguma seroada pra cumprir, o que não era raro, mas não, e Adelina já se preocupa, e sai em desespero ao encontro do marido, ao menos à procura, que sabemos já como será o encontro. Mal avisou Lucinda que ia, pra ela cuidar do almoço caso não voltasse a tempo, tamanha angústia, com a barriga daquele tamanho nem era direito estar andando pra lá e pra cá, mas o que se vai fazer, que Lucinda é tão doente, coitada, nem andar mais consegue.

Adelina bate palmas em frente à porta da casa de Felisberto, Senhor doutor coronel Felisberto... Felisberto... Senhor doutor coronel Felisberto... e antes de conseguir lembrar o nome completo do senhor doutor Felisberto um criado já vinha ver quem era que tanto gritava, Pelo amor de Deus, me chama lá o seu senhor doutor coronel que eu preciso muito de falar com ele, E quem é você, Eu sou Adelina Silveira, mulher do Zé Silveira que trabalha nas terras pra ele já tem mais de quatro anos, E  o que a senhora deseja com o coronel Felisberto Gomes Ventura da Boa Morte, Adelina faz o sinal da cruz ao ouvir o nome Boa Morte e diz Sabe o que é moço, é que meu marido veio pro trabalho ontem de manhã e não voltou até agora, e aquela chuvada toda, eu tenho um pressentimento ruim de que alguma coisa possa ter acontecido, Sinto muito, mas o coronel não vai poder atendê-la no momento... Pode deixar, Anísio, que eu mesmo trato com a moça... Em que posso ajudá-la, Senhor doutor coronel Felisberto... Pode deixa isso pra lá, me chame só de coronel, Pois é seu senhor doutor coronel, é o meu marido, o Zé, que trabalha pro senhor nas suas terras já tem mais de quatro anos, ele saiu de casa ontem depois da missa e não voltou, e eu queria saber se por acaso ele ainda está trabalhando, numa seroada a mando do senhor doutor coronel, Hum... O Zé não me falou que você estava prenhe... Nem que tinha uma mulher tão bonita, Muito obrigada seu senhor doutor coronel, mas quero saber do meu Zé, Bem, que eu saiba não precisei de ninguém ontem para fazer serão, Ai meu Deus do céu, então aconteceu alguma coisa, Calma mulher, entre cá um bocadinho enquanto mando o Anísio dar uma busca pela fazenda, Muito obrigada senhor doutor coronel Felisberto, mas eu mesma vou atrás do meu homem. E saiu Adelina, sob o olhar malicioso do coronel Felisberto Gomes Ventura da Boa Morte, que admirava e já cobiçava a carne roliça de Adelina. E corre Adelina para um lado, e corre Adelina para o outro lado, nunca havia imaginado ser tão grande a fazenda do senhor doutor coronel Felisberto, agora vê que não é à toa que o Zé chega em casa quase se arrastando. Chega à beira do riacho, senta exausta, desesperada, chorando mágoas, enxugando lágrimas no vestido já sujo, e é quando Adelina avista um corpo no rio, preso debaixo de uma árvore enorme que havia caído. Um nó na garganta trava o grito, melhor assim, que nem fôlego mais tinha, e ela corre na direção daquele que parece ser o Zé — O meu Zé — lamenta, e tenta rolar a árvore, tenta puxar o corpo, mas não consegue. Era mesmo o corpo de Zé Silveira, afogado junto com seus sonhos, suas esperanças e seus desgostos.
Desse dia em diante, não terá mais paz nos sonhos Adelina, que sonhará todas as noites com o marido morto, debaixo da árvore, imaginando, no sonho, que se levantar a árvore o marido voltará a viver, e tenta, mais do que tentou, mas não há força que agüente o peso da árvore, e Adelina grita por socorro, enquanto vê o coronel Felisberto soltar largas gargalhadas e sobrevoar o corpo do Zé, em busca de sua carne. E se não bastasse isso, Adelina ainda sonha, na mesma noite, com o marido dizendo pra ela Adelina, por que é que nos separaram, eu, que te amo, de ti, que me amas, quando é que vais vir pra cá junto a mim, Adelina, que aqui é bem melhor do que aí onde estás, e Adelina responde, Logo, Zé, assim que Deus me der a graça, que tenho medo de tirar a própria vida e não mais te encontrar, Estou te esperando, Adelina, estou te esperando. E se já não bastasse as agonias e as dificuldades do mundo real, tinha ainda essas do mundo dos sonhos, Adelina.

A chuva parou. Depois de chover o dia e a noite toda, este sol é de justiça, pensa padre Frido, aliviado. Mas a sensação de alívio de Frido será passageira, assim que souber da chegada de gente nova na vila, principalmente quando souber que essa gente nova vem da Alemanha, terra de Frido. Dizem ser um grupo de atmosferólogos, que estão estudando as condições do lugar, já que em Liúnas o clima é muito favorável em relação ao resto da região, mas cá já sabemos que não são.

Os dois homens não falam o português, só a mulher, embora fortemente carregado. Padre Frido ficou sabendo da chegada deles através de João Simão, nas suas visitas matinais, Tem gente nova na cidade, padre, e parece que são estrangeiros, dois homens e uma mulher, bonita a mulher, Estrangeiros, hem, como você sabe, Saber não sei não, mas que parecem, parecem, é um mais branco que o outro, e são muito esquisitos, o senhor tem que ver, ficam andando pra lá e pra cá, conversando com todo mundo, perguntando coisas, Ora, João, o que tem de mais sair por aí perguntando coisas, ainda mais quando se está num lugar estranho, que não se conhece, Eu sei, padre, mas não me parece lá gente comum, além do que, quem iria querer passear por aqui. Quando o senhor ver vai me dar razão.

E só se fala nisso na vila inteira, ninguém mais tem outro assunto pra tratar, afinal, não é sempre que acontecem novidades em Liúnas do Norte. Frido caminha em direção à praça, que é onde os forasteiros estão. Padre Frido já pode avistar os três conversando com a criançada, isto é, quem conversa é a mulher, já que só ela consegue se fazer entender. Padre Frido vai se aproximando, cada vez mais lentamente, conforme os traços dos dois homens se tornam mais nítidos, aquele homem mais velho... Bom dia, forasteiros, sejam bem-vindos à Liúnas do Norte, eu sou padre Frido, em que posso ajudá-los,  Muito prazer, padre, meu nome é Marthe, este é meu marido Vicent, e este é Christian, um velho amigo, eles não falam o português, somos todos alemães, Oh, alemães, e o que fazem aqui, tão longe de casa, Somos atmosferólogos e estamos fazendo um estudo das características do clima daqui, que é muito interessante, Sim, realmente não podemos nos queixar do bom Deus que tem olhado por nós, É justamente isso que iremos estudar, padre, se é o seu bom deus quem favorece o clima ou se é algum fenômeno atmosférico, Estejam a vontade, e contem com a minha ajuda no que eu puder ser útil, afinal, a igreja existe para ajudar esta pequena comunidade, e enquanto estiverem aqui também fazem parte dela, Obrigada padre… e o senhor, dá pra se notar que não é natural da vila, Não, na verdade não, eu sou da capital, nasci e fui criado lá, concluí meus estudos e depois vim para o interior, em busca de um lugar para construir uma igrejinha, evangelizar uma comunidade, essas coisas de padre, Sei, sei, Bem, eu já vou indo, muito prazer em conhecê-los, se precisarem de alguma coisa não se acanhem em me procurar lá na igreja, até mais ver, Obrigada padre, Não há de quê.

Frido afasta-se com o pressentimento de conhecer aquele homem, só que o pressentimento agora é bem mais forte do que antes, já que eram alemães, como Frido, que esforça-se em buscar na memória um nome que se encaixe com a fisionomia do alemão, que dizia se chamar Christian... Christian... Certamente não conheço nenhum Christian, a não ser que não seja esse seu nome, e sendo os nomes as palavras mais vazias que existem se não colocarmos alguém dentro deles, pode muito bem aquele homem ter sido colocado dentro daquele nome por pura conveniência.

Embora não haja jornal, rádio, ou qualquer outro tipo de divulgação de notícias em Liúnas, as notícias sempre acharão um canal para se divulgarem, e praticamente todos os liunenses já sabem que os forasteiros são alemães, que estudam o tempo, e que estão acampados perto do riacho, um pouco afastado da vila. Até o João Simão já formou uns versos sobre os estrangeiros, na verdade sobre a estrangeira, que é assim, Que mulher bonita eu vi, Chegou com mais dois e é estrangeira, É tanta beleza junta que quase morri, Tô apaixonado para a vida inteira, Vão estudar o tempo, Que coisa mais estranha, Sol, chuva e vento, Será que não tem isso na Alemanha, e sai cantando por aí, sorridente de paixão pela alemãzinha, ainda por cima loira, que é coisa que não tem por aqui em Liúnas. Mas não só João Simão foi se apaixonar por Marthe. Pedro Tristão, solitário, também foi atingido pela paixão, só que mais recatado que é, não sai por aí falando pra todos que está apaixonado, não gosta disso de dividir o que sente com os outros, sempre foi assim e nunca vai mudar, até o dia de sua morte. Coisas da vida, uns são faladores, outros são calados, uns desinibidos, outros recatados, uns atirados, outros recolhidos, mas todos são boa gente e igualmente filhos de Deus. Não será por essas coisas que Deus irá separar quem merece ou não entrar no Seu reino.

 
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