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Eduardo Miranda

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16.
 
Nem tudo é só tristeza, nem tudo é só alegria. Dentre tantas incertezas está a nossa própria vida, que seria mais fácil não termos um cérebro que exercesse tão complicada função que é a de pensar. Não a de simples pensar, que esta até os objetos seriam capazes de ter, se tivessem vida, mas a de elaborado pensar, que podemos chamar de matutar, que é aquele acúmulo de coisas que vão se ligando, umas com as outras, no decorrer da vida, e, às vezes, mostrando-nos o quanto estávamos errados, e por quanto tempo nos deixamos enganar por esse erro, tendo agora que correr atrás do que achamos ser o certo, ao menos agora, e tentar consertar tudo aquilo que deixamos passar, de uma maneira que não era tão certa, ou apaenas antiga e desusada, mesmo que sem querer, sem maldade, mas ainda assim diferente da nossa verdade. Não bastasse esse matutar, que são nossas atuais certezas, ainda temos nossas desconfianças, e nada pior que um homem desconfiado, pois sabemos que não há no mundo certezas suficientes que o faça deixar de lado, totalmente, estas dúvidas, e ao menor sinal de que algo não vai bem, todas as certezas de outrora desmoronam, como se nunca tivessem existido, e a dúvida vem no lugar, agora querendo ser certeza, o que lhe dá ainda mais força. Talvez o remédio mais eficaz para tanto questionamento e dúvida seja a morte, já que na morte todos nossos valores passam pela renúncia, pelo sacrifício, pelo despojamento, e deixam, num instante, de serem valores, toda aquela pressa que tínhamos para ir a algum lugar porque havíamos combinado com fulano, fazermos algo porque prometêramos a beltrano, juntarmos um dinheirinho aqui outro ali para comprarmos aquela rede feita de tecido resistente de linho ou algodão, nada tem mais valor perante a morte, já querida e desejada, e agora que meus olhos vêem a morte, abomino a mim mesmo e me arrependo, no pó e na cinza, pois com meus próprios olhos vi em Cuma a Sibila, suspensa dentro de uma ampola, e quando as crianças lhe diziam Sibila, o que queres, ela respondia, Quero morrer.
 
Frido rapidamente acomoda Pedro e João, que acabaram de entrar na sacristia. Meus filhos, o que irei vos falar pode chocá-los muito, ou até decepcioná-los, mas desde já, peço que me perdoem, que tudo que fiz foi de coração, com todas as boas vontades que possam existir. Vocês não eram nascidos quando cheguei aqui, mas seus pais... desculpem, os mais velhos devem se lembrar, eu cá cheguei já tem uns quarenta anos, vindo da Alemanha, sabia falar um pouco vossa língua, e cheguei dizendo que era padre, que iria construir uma igreja e tudo mais, mas se para ser padre é preciso estudar, eu não sou padre e nunca fui, ao menos nunca estudei para isso, portanto, não sou autorizado a ter uma igreja e a divulgar a palavra de Deus. Outra coisa, eu não vim para cá porque quis, vim fugido da polícia, era um criminoso procurado, ofereciam dinheiro por mim, vivo ou morto, por crimes de sonegação fiscal, que é o não pagar os impostos do governo e ganhar dinheiro de uma forma desonesta, por crimes de prostituição, que é o explorar do corpo dos outros através do sexo para se ganhar dinheiro, e ainda por crimes de jogo ilegal, que é o manipular e o roubar no jogo para se ganhar dinheiro, e também por ter matado um sem número de pessoas que se metiam no meu caminho e tentavam atrapalhar os meus negócios, e para fazer tudo isso eu tinha muitas pessoas que trabalhavam para mim, que eu também eliminava de tempos em tempos, e assim fui enriquecendo, cada vez mais, até ser descoberto e perseguido ao ponto de não mais conseguir viver em paz, embora em paz eu nunca vivi e acho que nunca viverei, mas nessa minha necessidade de fugir acabei vindo parar aqui, e já estava decidido a não mais praticar o mal, tanto que não trouxe dinheiro algum, apenas uma Bíblia, livro que antes nunca havia lido, e cá chegando tive a idéia de fazer a igreja, já que aqui não tinha, e tudo isso eu fiz de coração, posso jurar a vocês, se é que minha palavra quando verdadeiramente minha vale alguma coisa. Mas estou contando tudo isso porque sinto que algo vai me acontecer, tenho quase certeza, e aquele alemão mais velho, Christian, ele me assusta, se eu sumir ou morrer de repente, gostaria que soubessem disso, talvez assim minha alma fique mais aliviada e consiga subir aos céus, já que mais leve. João Simão e Pedro Tristão nem piscavam e mal entendiam, que era muita coisa ao mesmo tempo, mas já estava contado mesmo, e o que eles mais puderam perceber foram as lágrimas que brotavam dos olhos de Frido, a aflição que ele sentia ao falar, o nó desafogado do peito que sempre soube reter, as mágoas, não só as próprias, que agora desabafava, mas as de todo mundo.
 
Embora a razão seja comum a todos, cada um procede como se tivesse um pensamento próprio, e isso não poderá jamais ser contestado, já que Deus deu a cada um as faculdades do pensamento. João Simão e Pedro Tristão deixam a sancristia calados, sem olhar um para o outro. Caminham até a praça e separam-se, cada um pensando Acho que vou lá ter uma conversa com dona Marta.
 
E o que é o pecado afinal, senão a avareza, a gula, a inveja, a ira, a luxúria, o orgulho, a preguiça, a violação da lei de Deus em matéria grave, o pecado de Adão e Eva, que por esta causa, todos os seus descendentes, ou seja eu, você, ele, ela, aquele outro e aquela outra, os que conhecemos e os que não conhecemos, os que já morreram e os que ainda estão para nascer, enfim, todos os que na Terra andam, andaram ou virão a andar, já nascem em estado absoluto de culpa, sem culpa ter do que acontecera, e sem desfrutar, ao menos, do que eles desfrutaram, mas imaginamos que se Adão trocou todo aquele Paraíso certo por um quase inferno de incertezas, o que ele e Eva fizeram deve ter sido muito mais do que os livros nos contam, que tamanho prazer que sentiram, se revelado, poderia causar uma inquietação tamanha no mundo que nem Deus e o Diabo juntos conseguiriam volver a paz. Mas o pecado, que é o enfraquecimento da graça, algo terrível, espantoso, ou algo extraordinário, desafiador, inovador e instigante, que nos rouba a razão por poucos segundos, suficientes para nos desviar de um caminho outro e tomar este agora, do descobrimento, do rompimento, da transgressão, do vício, da juventude, da crueldade, da pena, da falha, da lástima, da tristeza, do erro, da culpa que não temos, já que nos acomete, estes pensamentos, sem os querermos, sem os matutarmos, sem os buscarmos em algum canto da memória, ou se fazemos, como já disse, é de maneira outra que por própria vontade, representado mentalmente em obediência a um impulso não ditado pela razão, sentimento que incita alguém a atingir algum fim, aspiração, anseio, desejo, sem capacidade de escolha, de decisão,  partindo de uma entidade superior, uma qualquer, já que basta ser superior para nos vencer os desejos e as vontades próprias. Mas, já diziam os mais antigos, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, ao menos algumas, que dependendo da tentação, que é aquela disposição e ânimo para a prática de coisas que outros podem achar diferentes ou, mais ainda, censuráveis, dependendo do grau de julgamento de cada um, dependendo da tentação, podem as vontades mudarem nunca, nunca acabarem nem morrerem, podem sim, não raro, a vontade ou desejo ou tentação ou pecado acabar matando o corpo que carrega a cabeça em que fez morada, ou coração, que bem pode também a vontade ou desejo ou tentação ou pecado fazer morada em corações, e uns dizem que é este o pior tipo que pode existir, o que se aloja no coração, que comparado ao que se aloja na cabeça, em muito é pior o coração nessas coisas de guardar sentimentos.
 
E não é errado dizermos que todo homem disso é formado, em graus maiores ou menores, é verdade, mas todos carregam, pelo menos uma vez na vida, uma vontade ou um desejo ou uma tentação ou um pecado, original ou copiado, emprestado ou roubado, e até comprado, alguns, e o que vai diferenciar a importância ou a gravidade de cada vontade ou desejo ou tentação ou pecado é o grau de influência que ele possa causar, como já foi falado do pecado de Adão, e não sei se seria mais ou menos certo falar o pecado de Eva, ou se o mais correto seria mesmo falar o pecado de Adão e Eva, juntos, sem atribuir a culpa ou a glória mais a um do que ao outro, embora já pareça ter um pouco mais de peso Adão, por ter seu nome em primeiro lugar na frase, que bem poderia ser o pecado de Eva e Adão, ficando até mais sonoro e poético, parece. Mas o que importa e era o que dizíamos a princípio, é a influência da vontade ou desejo ou tentação ou pecado que os acometeu, Adão e Eva ou Eva e Adão, que a muitos veio comprometer, condenando todos a meio caminho do inferno, já que antes o Paraíso era a única certeza e morada e agora temos que nos submeter a leis e regras que não nossas verdadeiramente, temos que nos subjugar sem conhecer, em profundo, as regras do jogo, todos os senões e poréns que compõem os Não farás... Não cometerás... e todos os outros Nãos.
 
Marthe aproxima os lábios ao encontro dos lábios dele, num ritual que já conhecemos. Embora ele tente se desvencilhar, difícil é quem consiga resistir aos encantos de uma mulher, e os lábios se unem, novamente, e ele que havia ido lá para falar das aflições de Frido, de Christian, já sentia o calor do corpo dela se aproximando do seu, e ela novamente sentiu aquela corrente de sangue descendo as corredeiras dele, rumo às partes mais baixas, fazendo enrijecer o músculo do sexo, e o dela que não é músculo para fora como o dele mas para dentro, vai se alimentando das sagradas secreções,  numa preparação ao que logo vai novamente acontecer, o duelo dos sexos, que de sagrado mesmo nada tem, é tão somente modo falar, que pensamos ser pelo prazer que nos causa, mas o prazer nem sempre é sagrado, aliás, difícil é o prazer que seja sagrado, a nós, pois sagrado é aos deuses, pois já aprendemos que devemos nos abster de coisas sacrificadas aos ídolos: de sangue, de animais sufocados e de fornicação, fazendo bem nos resguardar. Marthe arranca a camisa e depois arranca a dele, os corpos unidos, um sobre o outro, a calça nas canelas, a euforia que não permite a lógica e o sincronismo dos movimentos, mas agora é diferente, ele já não a vê como aquela mulher meiga de antes, já que chega uma hora, cedo ou tarde, acabam-se os piedosos, mas os que aos outros falam com falsidade, com lábios lisonjeiros e coração refolhado, ainda assim, são donos de seus lábios, e por isso existe a dúvida de quem ela realmente seja, e enquanto fazem aquilo, ele pergunta, conta o que sabe, o que padre Frido pensa, e ela geme, ouve, fingindo indiferença e já fingindo também prazer, que pude assistir daqui de baixo, um orgasmo meio real meio forjado, enquanto dizia que minha história era absurda, e não sei porque acreditei, e ela não parou, e só depois que ela negou é que pude alcançar a minha realização, sentir minha lava cor de madrepérola jorrar, ah, agora sim, largávamos nossos corpos um sobre o outro, buscando o relaxamento, que por ser o segundo não foi nada mal. Ela me perguntou se padre Frido havia contado a mais alguém, mas nem ouviu minha resposta, como se já soubesse, como se alguém já houvesse lhe contado, e ela se levantou, disseminando a imobilidade natural dos corpos, e eu me levantei em seguida, começamos a vestir nossas roupas. Eu disse, Já vou indo, e ela disse, Tudo bem, e não disse A gente volta a se encontrar.
 
E tudo isso aconteceu com Pedro Tristão e com João Simão também, ao mesmo tempo, sem ter o que tirar nem o que por, como se fosse possível os dois desfrutarem dos mesmos desejos e dos mesmos prazeres ao mesmo tempo, incursarem nos mesmos erros, que não foram os primeiros nem serão os últimos a serem enganados pela habilidade de fingimento de uma mulher, se nem Adão, de quem há pouco falávamos, que só tinha duas mulheres para escolher, acabou escolhendo a errada, que será de nós, num mundo bem mais povoado, onde as vontades, ou desejos ou tentações ou pecados são maiores em número e grau, às vezes em gênero também, proporcionalmente também aumentam as probabilidades de engano, se é que podemos usar destas ciências de obtenções, organizações e ilações nestes casos.
 
E por ser o mundo redondo e dar voltas, talvez tenha ele dado duas voltas ao mesmo tempo, ou ainda pode ser que tenha passado duas vezes pelo mesmo lugar, só que uma vez com Pedro Tristão e outra com João Simão. Quem aqui vai saber dessas coisas, só sabemos que naquela noite, três sonhos iriam se encontrar. Num colchão de nuvens, Marthe, Pedro e João, só que puros os dois, já que anjos, e ainda mulher ela, abraçados, com padre Frido, também puro, abençoando a união, e Marthe, sem saber por que e sem nada poder fazer para que isso mude, chora a morte de Pedro e João, e até a de Fritz, ou Frido, que é como tinha ele morrido no sonho.
 
 
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