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Eduardo Miranda

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10.

Dia chuvoso vai se mostrando este que mal começou, parecendo ser, entre nuvens, relâmpagos e trovoadas, o anúncio de algo que está por vir, uma mudança, tal qual quando Liúnas quis que lhe mudassem o nome, quando Ibiruengara se manifestou. Naquele dia fez-se tempo tão ruim quanto este, se não pior, e só choveu tão intensamente naquele dia e hoje, nunca mais. Por isso o povo humilde acredita que algo está por vir e reza, cada um esperando ser o benemérito da divina benevolência.

Padre Frido também conhece a história mas não é muito crente a ela. Teme sim as tempestades porque foi assim que Deus se vingou do homem, conforme conta, quando fez chover quarenta dias e quarenta noites sem parar, alagando tudo, o mundo todo sem um pedacinho de terra seca, só porque havia se arrependido de fazer o homem à Sua semelhança e ainda ter que olhá-lo todos os dias, observar seus atos e perceber que algo havia saído errado e não saber de onde provinha tanta maldade. Foi quando Deus abriu os abismos do céu e deixou que a água caísse. O que não se sabe direito é como Noé, filho de Lameque,  ficou sabendo que tanta água viria. Existe duas histórias, onde conta-se numa que era Noé um homem bom, a verdadeira imagem de Deus, e por andar junto a Deus foi avisado pelo Próprio, que disse Eis que eu trago o dilúvio sobre a terra, para destruir debaixo do céu toda a carne em que há espírito de vida. Tudo o que há na terra expirará. Mas contigo, Noé, estabelecerei o meu pacto: entrarás na arca, tu e contigo tua mulher, teus filhos, Sem, Cão e Jafé e as mulheres de teus filhos, e tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, farás entrar na arca, as aves, o gado, os répteis, tudo segundo suas espécies, dois de cada virão a ti para que os conserve em vida. E leva contigo de tudo o que se come, que te servirá de alimento, a ti e a eles. Mas há outra história que diz que passado cem anos do dilúvio, Deus ia calmamente caminhando pela Terra seca, crendo ser a única carne em que habitava um espírito, qual não foi sua surpresa ao ver uma família de humanos, viva, e mais adiante um casal de cavalos com alguns potrinhos, um leãozinho ao lado do papai leão e da mamãe leoa, um casal de chimpanzés, um de capivaras, um de girafas, de hipopótamos, elefantes, gorilas, avestruzes, leopardos, alces, tamanduás, cangurus, tigres, cachorros, onças, orangotangos, emas, veados, ursos, linces, zebras, gatos, coelhos, e mais outro animal, e outro, e outro, todas as espécies correndo livremente, insetos, pássaros voando, tudo. Deus aproximou-se do homem e perguntou-lhe Homem, diga-me o teu nome, e Noé desconhecendo todas as faces do Senhor, igualmente espantado em ver um ser vivo que não tivesse sido salvo pela sua arca, respondeu, Noé, e o seu, e inicia-se um pequeno diálogo, Deus perguntou Como conseguiste escapar ao dilúvio,  E Tu, como escapaste ao dilúvio, Eu não escapei, Eu o criei, Então és Deus, O próprio, Onde estiveste que não me ouviste, Estive ocupado com assuntos do novo mundo, agora responda, como escapaste ao dilúvio, Devias saber, já que és onipresente e onisciente, Diga logo, Homem, Um anjo me avisou sete dias antes de começar a chuva, Um Anjo... Sim, disse-me que o Senhor estava zangado e arrependido de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração, e por isso traria o dilúvio sobre a terra, para destruir debaixo do céu, toda a carne em que houvesse espírito de vida, tudo o que houvesse na face da terra expiraria, e após tal revelação, disse para que ainda assim eu não me desviasse de Teu caminho, pois Tu estavas irado porque viras a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente, e com isso pediu para que eu construisse um barco e recolhesse todas as espécies de animais nele, em casais, mais minha família e aguardasse pelo dilúvio, E como se chamava esse anjo, Chamava-se Lúcifer, e bem disse ele que eu Te encontraria, e que Perguntarias seu nome...

O medo de padre Frido é que tenha chegado a hora de fazer nova limpeza no mundo, e que desta vez não venha nenhum anjo que traga o archote para iluminar sobre a tragédia, e mesmo que vier, que não seja Frido um dos escolhidos para participar da caravana da salvação, além do que, Frido nunca entendeu por que os animais e os insetos também deveriam ser exterminados se Deus Se decepcionou com o homem, e se por um motivo ou outro escolheu pela eliminação dos insetos e animais, por que também não amaldiçoou os peixes, que continuaram suas vidas, já que é na água que vivem.

Pensando assim é que Padre Frido sente uma angústia, ou sabe lá que nome se dá àquele nó no peito que parece apertar tanto que chega à garganta e faz brotar água dos olhos, sem mesmo a gente querer, e acaba pensando na vida, na sua, na vida e na morte, nas suas andanças e nas coisas que vem fazendo já há bom tempo, como se obter o perdão se não consegue se arrepender, tantas coisas que tem verdadeira vontade de fazer, como não ficar triste com essa intransigência e crueldade, embora ganhando uma vida eterna mais gratificante, o que será da terrena, se sabemos que esta existência logo acaba, que uma vida é muito pouco, não dá tempo pra nada, muito menos para se arrepender, e mesmo que outra vida vier, de nada lembraremos, do que fizemos e de quem deixamos, e quando menos se espera, a jornada se acaba, e não adianta gritar, feito louco, buscando um suspiro de vida, que ninguém ouvirá, e o coração aperta mais e mais, e as cataratas da alma não conseguem se conter e se desfazem num dilúvio próprio e particular, mais terrível até, mas mesmo assim, padre Frido aspira uma vida mais justa e menos sofrida, já que eterna, nos céus.
E pensando assim, Frido vira-se de lado na cama, olha para o teto imaginando o céu, as estrelas, e suspira, entregue a heresias.

 
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