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Eduardo Miranda

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6.
 
É essa a vida que se leva em Liúnas, Liúnas do Norte, não nos esqueçamos, e é sorte não pensarem em coisas muito complicadas os liunenses, complicadas como o que fazer da vida ou para que ela serve, pois se nem mesmo aos anjos isto é revelado, como conta padre Frido, que Deus, conversando com um dos seus anjos, foi perguntado sobre o sentido da existência, para que havia Ele criado o homem e os anjos, o que pretendia com isso tudo, e Deus virou-se para o anjo e disse Se te conto aqui o que pretendo, não quererás cumprir tua parte, e o anjo calou, e assim tem que ser, que se fôssemos pensar, pensar pra valer, chegaríamos à conclusão de que nessa nossa vida são poucas as coisas que a justificam, pelo menos enquanto não conhecemos as vontades divinas, e que são poucas as coisas que a fazem valer a pena, não que valha uma pena, que isto é tão somente modo de falar, e já mais tarde fiquei a saber que é esta aquela pena que Antônio Constante falou, e por serem poucas é que devemos agradecer, cada um ao seu modo, por termos recebido a graça da luz que nos fez encontrar uma pena, ao menos uma, que uma já nos basta e já está de bom tamanho, embora outros mais afortunados acabem por receber luzes de maior intensidade no brilho, o que lhes permite encontrar duas ou três, senão mais destas tão raras penas que cada vida faz por valer, e nunca saberemos o por quê dessa discriminação, que se ao menos soubéssemos como Ele avalia estas coisas, nos empenharíamos mais ainda, mas nunca teremos o conhecimento de quais são os critérios que Deus se vale para iluminar os caminhos, e já que fé e louvor todos temos, devem ser outros os valores que Ele releva. Bem, com certeza deve ter Ele um bom motivo, e uma boa justiça também.

E assim eram todos em Liúnas, caçadores de penas, qualquer pena, não importando muito por que luzes eram iluminadas, que não era raro aqueles que queriam pegar uma brecha no brilho das luzes de outros, mas tudo sem maldade, só pra ver se encontrava mais rápido a tal pena, que maldade mesmo é coisa que ainda não chegou em Liúnas, que todo liunense é puramente honesto, ingenuamente honesto até, diria quem na vida é mais vivido e conhece as espertezas das cidades grandes, diria também que são todos tolos, bobos, pois onde já se viu não se aproveitar para entrar na vendinha do seu Joaquim quando ele sai pra almoçar e deixa as portas abertas, sem ninguém para olhar as mercadorias, ou ainda, achar dinheiro na praça e sair perguntando de um em um se não é ele o dono, e ainda por cima respondem estes Não, não é meu não, e só o dono mesmo é que irá responder É meu, nem tinha reparado, devo estar com o bolso furado, muito obrigado João Simão, Não há de que, Zé Silveira.

Zé Silveira trabalhava nas terras do coronel Felisberto Gomes Ventura da Boa Morte, e percebe-se que era rico o coronel já pelo nome, que nunca se viu por aqui pobre ter cinco nomes, pra quê, se muitas vezes dois já são demais, e acaba-se esquecendo o segundo, que um só já basta pra diferenciar e poder chamar, e chamava-se Boa Morte o coronel, dizem, é por ser demais cruel, por ter parte com o Diabo, por devorar a carne dos mortos — dos muitos que morreram trabalhando em suas terras — e não deixar senão seus ossos, que à noite pinta na cor azul, puxando o preto, e, como aquelas moscas que ficam em cima da carniça, ele voa satisfeito, mostra seus dentes, sua pele de abutre, e se estende sobre sua poltrona, de onde dá suas ordens.

Zé Silveira pega cedo no trabalho, as três e meia, quando o sol nem pensa ainda em nascer já nasce o Zé, e trabalha, trabalha muito, carpe, planta, colhe, suja, limpa, constrói, destrói, leva, traz, põe, tira, arruma, desarruma, ordenha, pasta. E quando o sol já vai morrer, lá do outro lado de onde nasceu, se não morre o Zé é por pouco, que tem outras bocas que dependem do seu suor pra poderem se alimentar, e continua trabalhando, que só pode parar bem mais tarde, lá pelas oito da noite. E ele ainda diz que é sorte morar numa casinha lá na fazenda mesmo, que é só acordar e caminhar uns poucos quilômetros que já está no trabalho, que quando termina, se morasse longe, era capaz de cair no meio do caminho e adormecer por ali mesmo, pois mal consegue caminhar de volta pra mãe Lucinda, pros dois irmãos pequenos, Ademiro e Lucélio e pra mulher Adelina, que o espera com uma bacia de água quente pra fazer a salmoura nos pés cansados, quase em carne viva, um prato de comida e a cama arrumada, que já chega praticamente dormindo o Zé, até o banho é deixado pra mais tarde, pra daqui a pouco, quando levanta e começa tudo de novo, todos os dias, só tendo folga na hora da missa de domingo, e olha que teve que insistir muito pra que o doutor coronel Felisberto concedesse essas horas sem descontar da féria, Onde já se viu deixar de trabalhar para ir em missa, dizia o coronel, deve ser por isso que se fala tanto que é dos pobres o reino dos céus, porque os ricos não têm tempo pra prestar atenção nessas coisas de Deus, de piedade, compaixão, humildade, justiça, igualdade, amor, fraternidade. Hoje não quero comer não, mulher, não me sinto bem, É canseira homem, converse lá com o doutor coronel e peça a ele um dia de descanso, Dá não, se eu fraquejar ele me manda embora, e aí, o que eu vou fazer, onde a gente vai morar, Mas pra que tanto trabalho, homem, ninguém trabalha como você, Deixe, você vai ver, daqui uns anos nós já teremos nossa terrinha, e aí tudo vai melhorar, Amanhã é domingo, bem que você podia ir trabalhar só depois da missa, a gente assistia a primeira e depois... Zé, tá me ouvindo, Zé... Não ouvia. Zé Silveira já dormia, e enquanto dormia ainda arrumava forças para sonhar, que só sonhando mesmo é que podemos ser o que não somos ou o que gostaríamos de ser, sonhar com as outras coisas da vida que não o trabalho, que o trabalho dele não é bem dele, isto é, não é o que ele realmente queria, a verdadeira pena de Zé Silveira, já que por aqui se trabalha no que se nasce, essa pena de trabalhar nas terras do doutor coronel Felisberto ele achou quando iluminada pelas luzes do pai, que já se foi mas deixou umas economias, e ele lembra As últimas palavras de meu pai foram para que eu tomasse conta de minha mãe e de meus irmãos, que eu assumisse o papel que era dele mas que ele nunca havia encenado, aconselhou-me a procurar uma mulher de quem eu gostasse de verdade e constituir uma família, e isso eu já fiz, que é Adelina, que logo vai desembuchar um rebento. Seu hálito cheirava a coisa já morta. Perguntei-lhe se eu deveria trabalhar como ele e juntar o dinheiro pra tentar comprar uma terrinha, pra um dia, quem sabe, poder plantar nossos próprios frutos, pastar nossos próprios animais, e nesse instante, meu pai que tinha até então os olhos fechados, abriu o olho esquerdo que ficou enorme como se incorporasse o tamanho do vizinho, e apenas com esse olhar, fez-me um doloroso apelo, como quem diz “cumpra tua missão”, e dele se acercou tão humilde a morte que lhe pôs uma única lágrima, brilhante, curta e rápida, no canto do olho. E foi aí que eu segurei sua mão, e olhando pela janela, lá onde o sol morre, confessei meus pecados, me desculpei por todas as coisas que não havia feito, pelos nãos que eu disse, por capricho ou por preguiça, quando deveria ter dito sins, e fiquei horas com o olhar solto na vermelhidão, as mão frias do meu pai acalentando os meus medos, até que dei-lhe as costas e saí do quarto, devagar.

Adelina vira pro lado, ajeita a barriga já grande numa posição confortável para ela e para o bebê que estava para chegar, e pensa nas noites melhores que hão de vir, quando o Zé não tiver mais que trabalhar tanto assim, e se imagina passeando na praça com o Zé, de mãos dadas, conversando com o pessoal da vila, que aqui onde moram não tem ninguém pra conversar, cantando moda e dançando nas rodas de cocho, até tarde, e depois voltar pro lar, deitar na cama, sem pressa, e trocar carícias, Deus que me perdoe mas que eu estou precisando estou, e não é que esteja desejando outro não, é o Zé mesmo, mas ele nem se agüenta em pé, coitado, que é que eu vou fazer, é só de vez em quando mesmo, pra ficar prenhe, encher a barriga e só, e se eu ficar mais tempo assim acabo ficando louca, acabo agarrando qualquer um que me aparecer na frente, até o cachorro, ai meu Deus do céu, me perdoa, prometo que amanhã vou à missa e me confesso com o padre Frido.

E pensando assim, Adelina vira de lado na cama, olha para o teto imaginando o céu, as estrelas, o amor, o Zé, e suspira, entregue a heresias.
 
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