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Eduardo Miranda

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7.

É certo que nada tenho eu a reclamar, que uma daquelas raras penas já encontrei, se bem que não é toda minha, esta que estou a fazer, contar uma história de forma escrita, que é bem diferente do que contar uma história de forma falada, por mais que sejam as histórias no todo iguais, nas de forma falada são outros os vícios e outras são também as técnicas de se contar, e dessas artes de contar histórias de forma falada não sou bom conhecedor, isso é lá com João Simão, mas de contar histórias de forma escrita, disso eu sei um pouco, e parece que mais aprendo conforme as palavras vou escrevendo, que ao escrever posso traçar um fio de raciocínio ou de caso e largá-lo no meio do caminho, inacabado, por sua própria sorte, e já outro começar, original de outras bandas de pensamento, que também este vai se desenvolver o quanto eu queira que se desenvolva, que posso de repente largá lo, findo ou não, para retornar àquele anterior ou ainda um novo começar, e trançar seu desenvolvimento com outros já começados ou totalmente traçados, e só parar quando achar por bem terminar a história, por puro prazer de terminar ou por não ter mais nada para contar, e depois, então, ter que achar outras histórias para continuar justificando essa minha pena, ou, se de contar histórias já me sinto farto, ter que achar outra luz que me leve a encontrar outra pena, para que possa fazer novamente minha vida valer, e assim, aos poucos, resumir nossas vidas, que, salvo variações de cada um, cada qual no seu trabalho ou ocupação, é a rotina da maioria das pessoas, não só em Liúnas, mas em todo lugar, procurar uma pena para a vida valer, pois aquela anterior já cumpriu seu papel. E assim vai-se vivendo, até que nos é chegada a hora de não enxergar mais luz nenhuma, e para uns isso pode demorar muitos e muitos anos, mas para outros pode acontecer cedo, que ainda estes serão mais afortunados que aqueles que nunca chegam a enxergar luz nenhuma, pura cegueira, e quando nos é chegada a hora de não conseguir enxergar luz alguma, por nunca ter havido luz ou por já ter chegado a hora de não mais enxergá-las, não se é mais possível encontrar as penas que Antônio Constante falou, e é aí que se começa a perder o ânimo e o sentido do viver, e daí para a morte é um instante, um piscar de olhos mais demorado, mais cansado, mais preguiçoso, e quando nos damos conta já não podemos mais abri-los, os olhos, já que não fomos feitos para durar mesmo, e essa angústia acaba deixando os defuntos com aquela expressão de felicidade e infelicidade num mesmo rosto — como se fosse possível os defuntos terem expressões de felicidade ou infelicidade. E dizem os mais antigos que é o rosto da felicidade pelo morrer e o da infelicidade pelo viver sofrido e sem tantos motivos, o sorriso aberto, esticado nos lábios já sem cor mas bonitos, a serenidade na face, as mão cruzadas sobre o peito, as flores catadas na beira do regato a enfeitar o caixote de madeira feito às pressas, que luxo não se tem em vida quanto menos em morte, e os olhos tristes, que embora fechados sabemos estarem molhados por lágrimas de uma vida sem muito vingar, sem grandes feitos a mais do que constituir uma família e trabalhar para seu sustento, e ficam-lhes, dizem, as duas expressões no rosto por estarem elas a brigar entre si, querendo ambas fazerem-se prevalecer naqueles últimos momentos frente outros olhos vivos.

Mas o que são essas coisas de morte senão todo o sentido das nossas vidas, e embora já muito falado, é nossa única certeza, a morte, mistério que ninguém poderia em vida explicar, e os que já morreram não podem nos contar, não por estarem mortos, que querendo dá-se um jeito, querendo arruma-se uma maneira de as almas baixarem ou subirem à terra, dependendo de onde foram merecer a morada eterna, mas não nos podem contar por serem essas coisas segredos de além-vida, como já nos disse em forma de história padre Frido, e tanto Deus como o Diabo reservam esses segredos para quando for chegada a hora. Pensando assim é que nos vem uma angústia, ou sei lá que nome se dá a esse nó no peito que parece apertar tanto que chega à garganta e faz brotar água dos olhos sem mesmo a gente querer, nos faz pensar na vida e na morte de uma maneira diferente daquela que padre Frido nos ensina, como se obter a serenidade se deixarmos tantas coisas que temos verdadeira vontade por fazer, como não ficarmos tristes com esse podar repentino, embora ganhando um lugar nos céus, que é o que esperamos, se sabemos que esta existência acabou, e mesmo que outra vier de nada lembraremos, do que fizemos e de quem deixamos, e o coração aperta mais, e as cataratas da alma não conseguem se conter. E pensando assim, vira-se para o lado na cama, olha-se para o teto imaginando o céu, as estrelas, e suspira-se, aspirando uma vida mais justa e menos sofrida, já que eterna, nos céus, e chega-se a questionar, e às vezes até mesmo a lamentar, que o ato de tirar a própria vida tenha sido abominado pelas leis de Deus — padre Frido já nos contou que Deus abominou o suicídio, pois sendo a morte a única maneira de se chegar ao Seu reino, temia Ele que não restasse uma só criatura viva na Terra, já que uma vez que lhes batesse à consciência que há um lugar melhor para se viver, no caso o paraíso, todos tirariam a própria vida, abreviando assim o tempo de espera para a eternidade divina, e hoje é sabido, pois nos foi ensinado, que ainda assim ganha a vida eterna o suicida, porém nos fogos do inferno.

É pensando assim que vira-se para o lado na cama, olha-se para o teto imaginando o céu, as estrelas, e suspira-se, entregue a heresias.

 
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