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Eduardo Miranda

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1.

Quando olhado bem de perto, para dentro da boca, pode-se ver o cuidado com que foi criada, as partes internas todas bem fixas e harmoniosas, as fibras se entrelaçando perfeitamente sem nenhuma falha ou desvio, os tons regulares de claro e escuro, a quantidade exata de poros para arejar, os reforços nos lugares certos, e conforme se afasta, vê-se a entrada da boca, os lábios bem definidos, bem trabalhados em desenhos quadriculados e calidoscópios, formando uma circunferência justa que abandona seus limites para dar início ao corpo, este de curvas bem torneadas, dando toda a postura necessária, cada veia em seu devido lugar, nem mais à esquerda nem mais à direita, todas paralelas entre si, e quanto mais se afasta mais se vê, e já se ganha o cavalete no raio de visão, austero, firme, pronto para suportar a dura tarefa de sustentar o sentido do todo, juntamente com a mão, que não se pode ver ainda, mas o braço sim, aos poucos vai se mostrando, nem longo nem curto, nem grosso nem fino, matematicamente dividido em casas, lado a lado, vizinhas naturais em concordância, e suas veias nada deixam a desejar às do resto do corpo, que é assim que tem que ser, tudo por igual, como se fosse uma só peça, que na verdade é, e  afastando-se um pouco mais pode-se ver a mão, com sua curvatura natural para trás, como se estivesse sempre na defensiva, sempre a ponderar, mais pressão, menos pressão, mais uma tarraxada, menos agora, e pronto, todas as cordas postas e afinadas.

Os primeiros passos de Pedro Tristão na música foram, como normalmente são os primeiros passos de qualquer um em qualquer coisa, difíceis, trôpegos e embaraçosos, muito mais um gatinhar do que um palmilhar, e procurava ele isto explicar naquelas desculpas em que todos se apoiam mas ninguém acredita, que não era mais ele aquele mesmo jovem de dez ou quinze anos atrás, que idade não lhe faltava, embora tivesse apenas trinta e cinco anos, e disfarçava seu interesse tentando desconversar, mudando de assunto do mesmo jeito que se muda um caminho que não nos agrada, que não se quer trilhar, pegando um desvio qualquer na estrada e dando uma volta enorme, sem rumo, sem destino, com a clara intenção de se desviar do caminho primeiro, até que alguém lembra os primeiros passos, e então ele volta, sem jeito, cabisbaixo, envergonhado de ter tentado escapar de fininho, em saber que o tempo todo alguém o estava vigiando. Embora sabendo que no seu íntimo, quanto mais Pedro Tristão se colocava disposto e à disposição daquilo tudo, ainda que munido de um pequeno manual de teorias musicais, não conseguia vencer o enigma daquela forma simétrico-linear em que o cocho se apresentava, aquele olhar macio e desafiador de quem já sabe de tudo e do outro lado está, em enorme desvantagem, quem nada sabe e nada pode fazer para essas regras mudar, por mais que se esforce, por mais que se empenhe, por mais que abra mão de outras coisas, por mais que lhe dedique todo o tempo do mundo, deste e de outros que existam ou possam vir a existir.

Embora fosse clara essa imposição do cocho — não sei se imposição deliberada dele, cocho, como se possível fosse um cocho ditar imposições, ou se era essa imposição fruto da imaginação de Pedro Tristão — ainda assim, ele era tentado a passar algumas horas de alguns dos dias de suas várias semanas recolhido com o cocho num canto qualquer da casa — como se tivesse muitos cantos sua casa, apenas quatro e já estava de bom tamanho. Pedro buscava sozinho a solidão, e embora só já morasse, sabemos que é outra a solidão que buscava, aquela que não se pode explicar, aquela que é boa, que tanto pode vir em meio a uma multidão como pode não vir quando estamos sós, aquela angústia de não conseguirmos manter dentro de nós mesmos todas as inquietações que parecem querer saltar peito afora, rasgando nossa carne feito o papel que embrulha o brinquedo e esconde o sonho de criança, que teria chance de trazer o tão almejado sossego para nossos desassossegos. Pedro se esforçava em fazer o cocho contar suas coisas de vida, tentando descobrir a melhor sonoridade, o melhor arranjo dos dedos sobre as cordas, pressionando-as de encontro às casas e nelas tentando fazer morada, procurando posicioná-los, os dedos, próximos aos trastes, as fronteiras desse novo mundo, tirando um ou dois ponteios que ainda tinham um cantar inseguro e indefinido, feito um filho aprendendo a falar, ma... ma…, pa... pa…, só que neste caso era dó... dó…, ré... ré…, e mesmo assim não deixava de ser gratificante um nosso filho emitindo suas primeiras falas, se é que se pode chamar de falas aqueles sons que com nada se parecem, mas para os pais são, e para Pedro Tristão aqueles simples e mal soados dós e rés eram as  primeiras músicas de sua vida, verdadeiramente suas, e carregavam um pouquinho de cada alegria que já vivera, cada sofrimento, lágrima por lágrima de cada choro, cada derrota e cada vitória, sendo eles mesmos mais uma, mas ele queria mais, não arredava pé, e continuava buscando um domínio que parecia estar cada vez mais distante, embora sentisse uma evolução a cada sessão, a cada investida um pequeno obstáculo vencido, que embora pequeno era mais um, e não importava o quanto demorasse, pois havia aprendido a acreditar que de pequenas em pequenas vitórias era possível conquistar-se um mundo.

Talvez toda essa tentação fosse pelo orgulho, que era este o seu mais perfeito cocho fabricado, e saiba-se já antes que tarde, embora se tenha dado a entender, que cocho, aqui por estas bandas, tanto é aquela vasilha de madeira escavada que serve para se lavar a mandioca ou servir comida ao gado ou ainda fermentar o cacau, como é o instrumento, de nome completo viola de cocho, cordofone dedilhado, feito em peça única de madeira escavada, e parece ser só por aqui que se faz instrumento desse nome, cocho, e tenho a certeza de que igual a este ninguém há de fabricar, porque é Pedro Tristão o dono do segredo, embora confessado e não descoberto, é o dono desse segredo, e enquanto viver, outra certeza que tenho, da sua boca não sairá, só quando achar por bem, quando a morte lhe estiver a chegar, aí escolherá um sucessor, e só assim será, como lhe foi, que se ele morrer de repente leva isso consigo, como seu mestre faria, que esta arte de fabricar instrumentos, cá por este fim de mundo, não é coisa que se aprenda em escolas, e foi só quando o mestre de Pedro estava prestes a morrer que lhe contou um sonho seu, e deste sonho originou-se uma grande descoberta, mas pela vontade de Deus ele estava partindo, pela vontade do mesmo Deus a quem ele tanto orou e que agora não queria que ele visse seu sonho realizado, ele passava para Pedro Tristão a responsabilidade de justificar toda a sua existência, de fazer honrar aqueles oitenta e cinco anos de vida e setenta de duro trabalho, provando que ele estava certo. Cabia a Pedro Tristão, naquele tempo com quinze anos, abandonar a infância, talvez não por completo se tivesse sorte, mas grande parte dela, o que já é uma perda, abandonar as brincadeiras de roda, de pique, os amiguinhos e as amiguinhas que poderiam vir a ser seus amigos e amigas, e quem sabe alguma dessas amigas viesse a ser a senhora Tristão, que pariria um ou mais tristõazinhos. Pedro teria que abandonar tudo isso e percorrer caminhos que nunca havia imaginado, embora os caminhos, mais cedo ou mais tarde, teriam que ser percorridos mesmo, no decorrer da vida, que quinze anos não é idade de responsabilidades, mas já aí teve o início precoce do que, pelo rumo natural das existências, só mais tarde viria a conhecer, a vida adulta, com um objetivo muito claro e definido.

Mas comecemos do princípio, que é de onde toda história deve começar.

 
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