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Eduardo Miranda

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12.

O sangue escorria pela testa devido aos ferimentos causados pelos espinhos ornamentados como uma pequena coroa, que rasgavam a carne para poderem ficar bem fixados na cabeça. O corpo já ia bem cansado, seminu, com uma enorme cruz de madeira maciça sobre os ombros, subindo longas e íngremes escadas, e o povo olhando, uns de compaixão, outros de prazer, e outros de tristeza, mas ninguém fazia nada para ajudar, não que não quisessem, alguns, mas não lhes era permitido mesmo, que ao menor avanço já eram afastados pelos guardas, menos aqueles que se aproximavam para piorar ainda mais a situação daquele que já ia ruim, para lhe cuspirem na cara, atirarem-lhe pedras e empurrarem-lhe o corpo para que caísse e tivesse que se levantar novamente, o que se tornava um duplo sacrifício, pois já não bastava o caminhar, ainda mais o levantar, tanto do corpo quanto da cruz, e os risos se ouvia muito mais do que os choros, já que havia muito mais pessoas a rir do que pessoas a chorar, e outros ainda, sem rir ou chorar, comentavam, Pobre homem, isto não é tratamento que se dê nem a camelos, outros ainda, A mim não dói, não o conheço mesmo, alguma coisa deve ter feito para merecer isto, e outros, Bem feito, muito bem feito, que bom termos um espetáculo destes para sairmos da normal rotina dos dias, e duas mulheres, Maria e Magdalena, choravam mais que todos, mas mulheres que eram, nem se ouvia direito o pranto, que já sem forças iam, e os soluços e as lágrimas se perdiam no meio das opiniões que predominavam na multidão, Só podia dar nisso mesmo, Também, quem mandou querer ser rei, e outros ainda gritavam, irados Morte ao rei dos judeus, morte ao rei dos judeus.

Padre Frido estava pensativo, meio que preocupado com a sensação de já conhecer aquele alemão de outros tempos, admirando o quadro de Cristo carregando a cruz, vendo seu próprio rosto manchado de sangue, e pior, se aquele alemão, o tal de Christian, for realmente alguém conhecido, com toda a certeza está no seu encalço, pois ou é bandido atrás de vingança ou é policia atrás de recompensa. Mas recompensa de quê, pensa Frido, Eu, pobre ninguém, perdido num lugar esquecido pelo próprio tempo, me fingindo de padre, que é o máximo que essa gente poderia ter, quanto tempo ainda este pesadelo me perseguirá, até a eternidade talvez, ou quem sabe melhor agora do que para sempre. E durante todo o dia padre Frido busca na memória alguma imagem que possa faze-lo lembrar de Christian, ou seja lá como for o nome dele, porém sem sucesso. Já é hora de deitar, e padre Frido ajoelha-se ao pé da cama para sua reza de todas as noites, elevando seus olhos para os céus, pedindo ao Senhor que sua palavra não vacile quando falar das leis divinas, que nunca mais será contra seu próximo, e não mais enganará com seus lábios, pois sabe que tudo tem sua ocasião própria, e todo o propósito debaixo do céu tem o seu tempo, assim como temos o tempo de amar e o tempo de odiar, o tempo de rir e o de chorar, o de fugir e o de enfrentar, de receber e de dar, o tempo de viver e o tempo de morrer, o tempo de vingar e o de ser vingado, o de caçar e o de ser caçado, de perdoar e de ser perdoado, o tempo de plantar e o tempo de colher o que foi plantado, o tempo de espalhar pedras e o de juntar pedras espalhadas, o de edificar e o de derrubar, de falar e de calar. Tudo isso tem visto Frido, sob este céu que nos abriga e protege, e vem aplicando seu coração na sabedoria divina, com algumas ressalvas, uma interpretação diferente aqui outra ali, que de onde lê acredita já ter sido interpretado, e sabe que deve fazer tudo que tem que fazer com suas próprias forças, e o seu arrependimento será a fonte da sua vida eterna — mas o arrependimento não vem… Amém.

E é só quando sonha que Frido consegue ser o que realmente gostaria, num lugar melhor, um paraíso, para que possa passar a eternidade serenamente, sem ter que se preocupar com obrigações ou deveres, ao lado das pessoas que gosta e já se foram, uma paz celestial, sonhada e real, os anjos tocando suas liras e harpas, voando ao seu redor, celebrando sua vitória, mas eis que surge um anjo caído, sem face, que não vem a vôo, vem a passos largos e apressados, um estranho, não convidado a entrar nesse reino dos sonhos de Frido, alto, muito alto, com capa preta e chapéu, parecendo ter asas também pretas nas costas, e dirige-se na direção de Frido e diz Finalmente nos encontramos Fritz, queira me acompanhar até o inferno, e solta uma gargalhada sombria. Fritz acorda, suado e assustado, agora com a certeza de saber quem é aquele alemão, o tal de Christian, o mesmo do sonho, que é atmosferólogo coisa nenhuma, e sim um antigo inimigo daquele longínquo final dos anos quarenta, numa Alemanha que se via ainda atordoada com a destruição causada por uma guerra inútil e sem sentido, fanática mas não assumida, que deve ser muito bom se achar um povo superior, privilegiado, mas o difícil é conseguir conciliar isso com os ensinamentos de Deus, e foi aí que aquele alemão meio austríaco e meio judeu, alucinado e de bigodinho ralo, falhou, pois se esqueceu de criar também uma igreja, que só o exército não foi o suficiente, aí sim, se a guerra fosse declarada santa, quem sabe o mundo hoje seria diferente, pior para nós, não-alemães, provavelmente melhor para eles, alemães, ao menos melhor para alguns alemães, que nem todos compartilhavam com as maluquices daquele outro, e foi por bem que pela guerra falharam, mas não na tecnologia, que bem sabemos que a bomba era deles, mas um outro iluminado achou por bem guardar segredo, que tal poder na mão de um homem só, ainda mais aquele, poderia até mesmo se comparar a Deus, e com medo da ira divina, não quis ser ele o responsável pela descoberta, embora responsável já fosse, mas só para ele, e acabou revelando esse segredo a outros, também malucos estes, talvez menos, que bem ou mal boa coisa também não fizeram, embora o final pareça ter sido melhor… aí vale perguntar se os fins justificam os meios, quem irá julgar… Pena mesmo é não haver desses iluminados em todos os países. Talvez fosse pedir demais.

 
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