Make your own free website on Tripod.com

Eduardo Miranda

novela
Home
poesia
contos
novela
liúnas

8.

Pedro Tristão sempre levanta cedo, prepara o café e já passa a trabalhar seus artesanatos. Não se queixa, nunca se queixou, nunca se queixará, não sendo raro o dia que nem chega a dar com a cara pra fora da janela, pra uma olhadela ao menos para admirar o belo amanhecer de Liúnas, o sol, muito devagar, se acercando do horizonte, sentir na cara a frescura da manhã, as vibrações da luz da alvorada ainda sem cor definida, os galos que percebem sua chegada e se levantam para indagar seus movimentos. Esse tempo único forma o quadro belo e sutil  que é cada manhã, mas para Pedro, o sentido de tempo não tinha um tamanho ou uma distância determinada, não tinha pressa nem calma, nada que se pudesse medir ou calcular, mas uma coisa indefinida, sem lugar de começo e parada, que só com o desejo era capaz de afastar e aproximar, de trazer e levar. E mesmo isso não impedia Pedro de alimentar seus sonhos, que embora já não fossem muitos, ainda eram vivos e disfarçavam sua solidão, cada vez mais presente. Trabalhava de segunda a segunda, só tendo folga nos domingos de manhã, para ir à missa, que domingo à tarde chegava Adalberto Cantado, vindo da cidade pra comprar seus trabalhos, e pouco conversavam eles, dizendo Tarde Pedro, Boas, Cantado, Tem muitas peças pra hoje, Tenho sim, andei fazendo umas cadeiras de descanso e umas mesinhas, tem também uns baús, uns caixotes, Bom, o pessoal da cidade gosta muito do seu trabalho, Obrigado, Bem, toma aqui o dinheiro e até semana que vem, Até.
Pedro vez ou outra passava em frente à igrejinha do padre Frido. Vezes parava, vezes seguia, quando alguma coisa lhe incomodava, algo que não pudesse mais suportar, quase a lhe arrancar o coração do peito, aí sim, dava uma paradinha, trocava duas ou três palavras com padre Frido, duas ou três palavras que poderiam demorar tanto dez minutos quanto duas horas, dependendo do grau de sofrimento colocado na fala, que pode provocar um sermão com maior ou menor influência por parte de padre Frido. Fora isso, como já disse, Pedro freqüentava as missas dominicais assiduamente, onde ouvia padre Frido que sempre começava dizendo Estamos todos aqui reunidos em torno da mesa eucarística como irmãos e irmãs para celebrarmos nossa privilegiada posição de filhos de Deus, que se Deus necessitar de braços para ceifar a messe, daremos os nossos, os dois até, que todos somos frutos da Sua messe. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e todos respondiam, Amém.

E o mundo, bola grande como é, com seus rios e mares, suas terras formando continentes, suas florestas e mais quem na terra mora, homens e animais, os que vivem no mar e os que vivem no ar, as nuvens e tudo o que possa existir e ainda nos é mistério, com tudo isso, imaginamos como deve pesar o mundo, e o que devemos pensar quando alguém nos diz que carregamos o mundo nas costas, impossível, que todas as forças juntas ainda não seriam suficientes para levar o mundo a lugar nenhum. Caminhava Pedro Tristão pela rua da praça, a pensar estas coisas de mundo, só a imaginar, que de Liúnas nunca saiu, e daqui, o mundo não é mais do que uma enorme linha no horizonte, que separa ou junta a parte verde das matas com a parte azul do céu, onde o sol se deita, alaranjando o que resta de claridade até a escuridão, dando espaço para a lua e as estrelas.

Outro que acorda cedo todos os dias é João Simão. Não para o trabalho, que trabalho ele não tem, mas para admirar aquele espetáculo matinal que falamos há pouco, para tomar o seu café, para o cuidado com seu cocho e para seu quintal, que é de lá que come. Disso não se queixa, nunca se queixou e nunca se queixará, aguando o arroz, o milho, a mandioca, o feijão, as verduras e legumes de horta, as frutas de pomar, todos os dias, colhendo o fruto de um trabalho, que embora não remunerado, era um trabalho, e vez em quando uma galinha completava a refeição, e quando abundava o alimento, João dava para quem precisasse ou quisesse, Leve lá uma galinha, dona Adelina, pra engordar, Muito obrigada, João Simão, e Deus lhe pague, Pode deixar, mande um abraço ao Zé, Será dado, até mais ver, Até. Vale saber também que João Simão não vai a lugar nenhum sem antes passar na igrejinha do padre Frido para uma boa conversa, que vez ou outra não é apenas uma simples conversa, mas um desafogo de mágoas acumuladas que João também carrega na alma, e só se dispõe a falar desses assuntos quando a dor já não lhe cabe num único peito, e já que outro ele não tem, recorre a padre Frido, que com seu dom de dizer palavras de tranqüilidade faz as partes do outro peito, necessário para compartilhar o sofrimento e assim aliviar, pelo menos aliviar, as dores. Fora isso, João ainda freqüenta assiduamente as missas dominicais do padre Frido, que diz Saibam irmãos, que se Deus levasse em conta nossas faltas, todas elas, como poderíamos subsistir, como ter a certeza de que em Deus encontra-se o perdão, como saber se Deus, que renova o mundo, renova também o paraíso, pois se assim for, além de termos que merecer entrar no reino dos céus, teremos ainda que merecer a nossa permanência lá, e é por isso que devemos orar sempre, todos os dias, para que reforcemos nosso perdão perante Deus, e todos respondem Deus, tenha piedade de nós.

Pedro e João se olham, de longe na missa, todos os domingos. Vez em quando um cumprimento tímido, quando em vez não, cabeça baixa, que o recato é o melhor remédio para a timidez. Deus vos abençoe e vos guarde, que ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós, volva para vós o seu olhar e dê a sua serenidade. Voltem em paz, irmãos e que Deus vos acompanhem. Fim de mais uma missa, a alma sai mais leve da igreja, tão leve que parece o corpo nem tocar o chão. Zé Silveira volta para a fazenda do doutor coronel Felisberto, ele mais a mulher Adelina, que não sai com a alma mais leve, ao contrário, sai com um peso enorme sobre os ombros, já que não teve coragem de comungar, não sabendo direito se era errado ou não o que sentia, querendo não pensar naquilo e ao mesmo tempo já fazendo tudo no pensamento, e o pior é que fazia com alguém que ela pensava ser o marido, mas não tinha rosto esse personagem dos sonhos de Adelina, e também não tinha o corpo curvado pelo trabalho, nem era tão raquítico.
Mal chegam em casa e já vai Zé Silveira pro trabalho, que não pode demorar a prestar seus serviços ao doutor coronel Felisberto, Deus me livre de despertar a ira do homem, que se for pensar, Zé Silveira irá achar que patrão que nem ele não há, que deixa ele ir à missa sem descontar do pagamento. Tchau Adelina, até mais à noite, Tchau Zé, bom trabalho, e pode deixar que de noite tem aquela comidinha que você tanto gosta, aquele ensopado de galinha. Engano dela e dele, pois não sabia Adelina que Zé Silveira não voltaria hoje para casa, nem hoje nem nunca mais, que iria cair morto no campo, antes do anoitecer, e poderia pensar Adelina, Que Deus é esse que levou o meu Zé pra longe de mim, eu que estou prenha  e necessitada de homem, só se for por castigo das coisas que andei pensando, mas não precisava me punir assim, mas ela não pensa, não teria coragem de contestar as vontades divinas, que se Deus levou é porque dele precisava lá em cima, e não seria ela que iria julgar se era certo ou errado as atitudes do Senhor.

 
capítulos:
1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 - 8 - 9 - 10 - 11 - 12 - 13 - 14 - 15 - 16 - 17 - 18 - 19
poesia, literarura & afins