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Eduardo Miranda

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ironia do destino

A lua parecia mais vermelha que o normal, embora meus olhos também estivessem mais esbugalhados. Que noite! Podia sentir o cheiro de sangue dentro do meu nariz, ainda dessecado de tanto brilho. Se eu passasse duas ou três dessa por mês o coração não agüentaria o peso de meus trinta e poucos anos. E todo dia seguinte é a mesma coisa... O guarda-chuva atravessado na garganta, a cabeça entre as pernas, os olhos grudados pela remela... Só consigo me lembrar do banho tomado no meu último flash de lucidez e do esforço sobre-humano que se torna o levantar, em mais uma busca inútil de algo onde algo não existe.

Cada vez que saio de casa, um cubículo de cimento no quarto andar de um poleiro do centro da cidade, rodeado de prostitutas, traficantes, viciados, assassinos, puxadores de carro, seqüestradores, enfim, coisas normais da rotina de qualquer cidadão de bem como eu, a possibilidade de arrumar ou não uma grana já não me incomoda mais. O que me incomoda atualmente é como e quando eu vou voltar. Se minha noite será aquela velha rotina de uma vagabunda no travesseiro ao lado, um pouco de brilho no espelhinho em época de vacas gordas, ou se será mais uma incursão num não-sei-o-quê que ainda me levará dessa para uma melhor, numa cerimônia linda, com um padréco me dando a extrema-unção, uma representante do serviço social, uma ou duas prostitutas me xingando por uma grana que eu devia, eu num elegante paletó de madeira compensada com alças de alumínio barato para lembrar as minhas noites de brilho fácil, em vôos impensados mas gloriosos, finalmente terminados, como meus ídolos, só que eu não tenho fãs, só uma margarida jogada por acaso por alguém que provavelmente não me conhecia o bastante. E nada posso fazer a não ser esperar o dia seguinte, que às vezes chega a ser três dias depois da minha última lembrança, e agradecer a não-sei-quem, por conseguir lançar para fora da cama os fragmentos do meu corpo, primeiro os membros inferiores, gradativamente o tronco, os membros superiores, e por fim, a cabeça, que de tão pesada parece ser um ser à parte, precipitando-se e me dizendo, baixinho, ei cara, não confie tanto em suas veias, elas podem lhe pregar uma peça.

A semana foi péssima. Nenhum golpe bem sucedido, nenhuma transação concluída, nenhum otário no meu caminho. Creio que terei que usar minha última cartada: Nancy. Nunca fui de grandes escrúpulos, muito menos de compaixão, mas não sei por que me odeio cada vez que tenho que recorrer à Nancy... uma moça de bem. Não de bem como eu, mas realmente de bem. Trabalha como caixa numa pequena farmácia que só ela, inocente como veio ao mundo não vê que é só fachada para um laboratório de destilação de cocaína, de propriedade de um chinês tão nojento quanto as baratas que habitam minha dispensa, por um salário de desempregada, treze horas por dia, seis dias por semana, e ainda é capaz de me dizer, mês ou outro que apareço em sua casa, que sou um bom homem, de quem adoraria criar os filhos e levar uma vida pacata, cheia de restrições e limitações, e não cansa de perguntar quando vou resolver largar esse negócio de comércio exterior e arrumar um cargo de gerente numa boa firma por aqui mesmo, para ajeitarmos nossas vidas... pobre Nancy, jovem fêmea no cio, selecionada criteriosamente entre todo o vômito da vida que não quero pra mim.

Eu com um sorriso enorme, que ia de uma orelha à outra, quase separando sua cabeça em duas partes, imitando um tampão de vaso sanitário. Me encheu de beijos e agradeceu a deus por eu ter um patrão bonzinho, que me concedeu uns dias de folga. Tomamos um bom banho, daqueles que eu não via há semanas, preparei um veneno que ela achou delicioso para bebermos em meio a algumas sacanagens, um ou dois barbitúricos e só, senão ela percebe, e não sou eu quem vai demolir seu castelo, onde na verdade se abrigam meu oportunismo e minha falta de caráter. Ela leu meu horóscopo para a semana, eu li o dela, quanta besteira, ouvi um pouco de seus planos para o futuro e finalmente o jantar: espaguete ao molho branco, com pedacinhos de bacon, azeitonas pretas e presunto picado, além de um pernil natalino - estamos em março! - que ela havia guardado para mim do nosso último encontro, de onde tive que sair às pressas para tratar de uns negócios no exterior. Comi como nunca, aliás, sempre que vou lá me empanturro, e não sei por que, acabo me lembrando de mamãe, que apesar de não ter sido tão santa, que deus a tenha, era uma boa pessoa, embora nunca tenha conseguido acertar o ponto do ovo frito... coitadinha. Não me esqueço daquela noite em que, depois de tirar o ovo esturricado da frigideira com óleo semanal, jurou que o próximo seria perfeito, pois já sabia onde vinha errando todos esses anos, mas, infelizmente, não sobreviveu àquela bomba caseira... Talvez tenha sido a preocupação com o ovo frito. Eu vivia lhe dizendo que se ela cozinhasse tão bem quanto fabricava bombas, abriríamos um restaurante e poderíamos viver sem problemas, mas ela já emendava dizendo que nessa vida precisávamos nos especializar em alguma coisa, e ela havia escolhido a pólvora ao invés do fermento. Ela era realmente boa, e se gabava sempre de que nunca aconteceria com ela o que aconteceu com papai, em Marrocos, que ao dar o toque final numa grande encomenda acabara ficando sem a cabeça e todo o resto que a sustentava. Ironia do destino, talvez.

Amanhece o dia. Furtivamente me ponho de pé, ainda sinto o perfume dela misturado ao meu odor inebriante e promíscuo, lavo a cardina da alma e me troco num silêncio solitário. Despeço-me com um beijo cuspido na testa da minha bela adormecida, o mesmo bilhete da última vez, creio que da anterior também, uma satisfação, uma prestação de contas, espécie de permuta em que ela acredita, e parto para outro dia, sempre chuvoso e nebulento. Com alguns trocados que timidamente pedi à Nancy para o táxi na noite anterior, pois disse a ela que só tinha uma de quinhentos, fiz um rango no Bright, um boteco de uns amigos meus que só entra quem tem muita convicção de onde está entrando ou quem não está nesta vida para porra nenhuma. Ainda sobrou um troco para uma luz mais tarde, onde pude ouvir, nitidamente, alguém me recomendando cuidar melhor do meu cérebro, e quando me olhei no espelho, era todo cérebro, marrom e sanguinoso, exposto às mãos ásperas de qualquer demente que pudesse ver o mesmo que eu.

A falta de grana deveria ser considerada um crime social. Um cidadão como eu sujeitar-se à falta de dinheiro? Pior é que faz apenas cinco dias que estive com Nancy... Se eu aparecer lá novamente em tão pouco tempo, ela me arrasta pra igreja. Ainda por cima, tem aquele turco terrorista ex-cliente de papai e mamãe que não sai do meu pé, querendo que eu faça uma bombinha para ele levar aos ares uma embaixada qualquer... Eu já disse a ele que tenho fortes motivos para não entrar nesse tipo de negócio, mas ele é insistente e eu estou duro, o que nos possibilita um acordo, afinal, uma bombinha a toa não vai fazer a diferença.

Eu devia ter entrado nessa há mais tempo. Nunca ganhei dinheiro tão fácil. Como pôde acontecer aquilo com papai e mamãe? É como roubar o doce de uma criança. Vejo, pela primeira vez, a possibilidade de arrumar uma ocupação, prá variar, e não viver de míseros golpes aqui e ali... Tudo pronto. Só falta agora ajustar este detonador um pouquinho para a direi... BBBUUUUMMMM!!!




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