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Eduardo Miranda

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ainda amanhã

Se me perguntarem porque escrevo isso certamente não responderei, ou por não saber ou por não querer expor uma necessidade tão íntima e intensada, mas acabarão descobrindo que na verdade só escrevo isto pela falta do verbo que o amor em mim espera de você, pronunciado uma vez ao menos, pois já me cansei de acreditar que no silêncio discreto da sua palavra está a força do seu sentimento, também discreto e comedido, em confronto com a minha total entrega e despudor em me entrevar frente a você e seus caprichos, e digo caprichos porque há muito você percebeu o quanto me tem em suas mãos, há muito percebeu que não distingo mais as palavras, se de amor ou de ódio, se rudes ou carinhosas, se pedidos ou ordens, se elogios ou ofensas, se aprovação ou rejeição, tudo já me soa lírico quando estou a seu lado, meu corpo todo respira o seu corpo, perco meus contornos e me misturo ao que escapa da sua boca, dos seus poros, e se esboço um ensaio, um mínimo esforço de reação a esta condição de entorpecimento, lá vem você novamente a me tocar os seios, beijar meu ventre, afagar meus medos e desejos, todos juntos, o que acho pura covardia de sua parte, e as já pequenas possibilidades de qualquer luta ou resistência ou simples oposição agora se tornam completamente nulas, ineptas e inertes, e eu, inerme frente a tudo que você me faz, sufocada em seu despotismo, reacomodo minhas pequenas fagulhas frustras, me redimo a colher o que você fruteia em mim e sufoco meu grito insurgido, grito que asfixiado pelo peso confortante do seu corpo, quer calar, mesmo que tivesse forças para romper e explorar, pois agora ele se recompõe em palavras doces e desconexas, frementes e ansiosas, preocupadas mais em expulsar o silêncio constrangedor daquele momento de nulidade do que reestabelecer alguma sintonia harmoniosa entre as imobilidades das carnes, embora tudo parecesse tão bom como da primeira vez, a mesma impaciência, a mesma urgência noviça, até o mesmo embaraço da impessoalidade, não fosse a respiração da terra, alta demais, encavernando qualquer esforço de comunicação, ainda que uníloqua mas comunicação, mas o sol se põe cedo nesta pequena ilha desértica, onde os lençóis de areia envolvem nossos corpos e os chinelos boiam na orla à beira-mar. Nem a cerimônia da troca da vigília entre sol e lua nos abala, embora saibamos que ambos estão sempre lá, o tempo todo, um vigiando o outro enquanto nos vigiam, nem isso altera nosso estado de suspensão atemporal, rígido e inflexível espaço de silêncio inundado.



Se ao menos alguém te roubasse de mim, eu poderia te amar à distância, com meu anzol de corações, mas não, sei que és só meu, e talvez, serás meu para sempre, no teu silêncio idiossincrásico, perturbador, quase inadmissível, e tuas pequenas fugas de consciência, teus atributos em relação ao mundo, aquela distância em que crias possibilidades de mais altas integrações, contigo mesmo ou com o que te rodeia, e embora eu esteja sempre a teu lado, não sou incluída nas coisas que te rodeiam, talvez por isso mesmo, por estar tão a teu lado que já seja uma pequena parte de ti e não perceba, bálsamo lenitivo infundido na mesma secreção, glândula vária que alimenta a segurança, não em demasia, que se a certeza for muita é capaz de perder o gosto, mas na medida certa do ego, aquele tempero que dá água na boca mas deixa a dúvida de qual especiaria falta uma pitadinha, e até esta semicerteza me incomoda, tanto por não ter o porto seguro onde atracar meu barco de viver eternamente, quanto por saber que este mesmo barco não precisa mais partir para águas nenhumas, não que não precise apenas, mas de uma maneira ou de outra faz-se dar em seco, encalhado num cais a muito não acostável, e se a imagem de única embarcação possível em todo este teu mar vem à tona, o desespero só não se torna maior porque logo me amarro à tua terra, para sentir novamente a tua rejeição doce e passiva, entre beijos fugazes que tentam disfarçar a pressa aparente de uma leitura qualquer, com a ajuda impaciente de um abraço furtivo e desajeitado, como antigamente, nas primeiras vezes, quando eu atribuía todo este mal-estar ao início desjeitoso de todo relacionamento, e na verdade não sei se já me enganava ou me engano agora, não sei se no fundo sempre procurei este equilíbrio entre a certeza de um relacionamento sadio e a insanidade de uma mulher de ninguéns, quanto mais ninguém melhor, ninguém eu mesma, não-alguém, que é uma negativa mais explícita e contrabalança bem com minhas crises de menina-moça-dona-de-casa. E se perguntasses, inquiridor, a quantas anda meu coração, não seria capaz de te dizer, nem a pedaços, nenhuma das minhas insânias, que embora tenhas passado por todas as experiências que eu em sonho nem imagino, não serias capaz de assimilar tanta demência que mesmo eu não posso acolher, ainda mais ante o pavor que a possibilidade do desterro de ti me oferece...

E ainda nem é amanhã.




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